domingo, 9 de junho de 2024
A delicadeza diante da tempestade
A tão esperada consulta... finalmente chegou.
A mastologista é a sensibilidade em forma de gente, uma alma rara e de uma delicadeza sem tamanho. Olhou nos meus olhos, examinou cada detalhe e, com os exames nas mãos, refez o percurso do meu corpo com uma cautela dolorosa. Depois, com todo o cuidado e a humanidade que cabiam naquele espaço, revelou o diagnóstico.
Sinceramente, não sei se existem palavras certas ou um tom suave o suficiente para dizer a alguém que ela está com câncer. Na verdade, tenho certeza de que não existem.
Só o som dessa palavra — câncer — já carrega um peso capaz de paralisar o tempo, congelar o sangue e fazer o chão desaparecer debaixo dos pés. É uma palavra que ecoa como um trovão no peito, assustando até a estrutura mais forte e lançando a alma em um abismo de incertezas.
Entre a agonia da espera e o meu refúgio
Em 14 de janeiro de 2021, o relógio parecia arrastar as horas enquanto eu caminhava ao encontro da tão esperada consulta com a mastologista. Nas mãos, eu levava uma pasta que pesava mais do que todos os papéis e exames — incluindo a biópsia — podiam traduzir. Mas chegar até ali não foi simples; parecia que cada pequeno detalhe do universo conspirava para colocar barreiras no meu caminho.
O atraso da médica veio acompanhado do aviso seco da secretária: ela iria demorar. Muito. A sugestão de remarcar soou como um golpe, um adiamento do inevitável. Respirei fundo, fechei os olhos por alguns minutos e tomei a decisão de ficar. Eu não podia voltar para trás.
A espera se prolongou por dolorosas seis horas além do horário marcado. A cada minuto que passava naquela sala, o nervosismo me engolia por inteiro, fazendo meu peito apertar. E nesses momentos, em que a realidade fica pesada e assustadora demais para suportar, eu faço o que sempre faço quando o medo tenta me dominar: fecho os olhos e fujo para o meu lugar favorito...
"Meu mundinho"
sábado, 22 de abril de 2023
Um sopro de luz no meio do caos
A minha primeira tentativa foi reencontrar a médica que acompanhou o início de tudo, aquela que investigou o primeiro nódulo na minha mama esquerda. Mas ela não estava lá. O chão pareceu tremer um pouco, mas não desisti: busquei uma segunda profissional. Quando tentei falar com ela, o mesmo balde de água fria — ela também não atendia mais naquele consultório. As secretárias insistiam, oferecendo outros nomes, mas o meu peito dizia que eu não podia entregar algo tão delicado a qualquer um. Recusei.
Com o coração na mão e o nervosismo crescendo, decidi que precisava achar a primeira médica custasse o que custasse. Liguei para dezenas de clínicas, uma atrás da outra, e a resposta era sempre a mesma dor de cabeça: nada.
Em meio ao desespero de ver o tempo correr, busquei socorro em quem já conhecia a minha história por inteiro: a minha ginecologista, que esteve ao meu lado desde quando descobri a endometriose. E ali, como um sopro de luz no meio do caos, o milagre da empatia aconteceu. Sem hesitar, ela pegou o telefone e ligou diretamente para a mastologista. Elas eram amigas. Em questão de minutos, o contato direto estava nas minhas mãos.
Consegui marcar a consulta. Um ufa gigante ecoou no meu peito — um alívio tão profundo e necessário que fez parecer que, finalmente, a vida me dava uma trégua para voltar a respirar.
Diante do abismo, sustentada pela fé
Escolhendo viver, esperando em Deus
Naquele dia 23 de dezembro, o mundo parecia ter pausado para o fim de ano. Conseguir uma consulta emergencial para que a médica analisasse o resultado da biópsia era uma missão impossível — os consultórios estavam fechados e os telefones só chamavam em vão. Estavam todos de férias.
Eu estava com aquele envelope nas mãos, segurando o peso de uma dúvida que poderia mudar a minha vida, mas não havia a quem recorrer.
Foi então que tomei uma das decisões mais difíceis e corajosas da minha jornada. Olhei para o envelope, respirei fundo e o guardei no fundo da gaveta. Decidi que não deixaria o medo roubar os meus dias. Tranquei a angústia no peito, engoli a incerteza e fui viver. Fui buscar o abraço da minha família no Natal, ver o céu se iluminar no Ano Novo e respirar o ar das férias.
Aquele gesto não foi fuga, foi um ato de sobrevivência. Eu precisava guardar forças, me encher de amor e fé, porque no fundo do meu coração eu sabia: quando o ano virasse, eu precisaria de cada pedaço de mim para lutar.
Quando o mundo celebrava, o meu tempo parou
Vocês querem saber quando, finalmente, aquele resultado da biópsia chegou às minhas mãos?
É uma daquelas ironias dolorosas que só a vida é capaz de desenhar… O laudo saiu exatamente no dia 23 de dezembro de 2020.
Às vésperas do Natal. Num momento em que o mundo inteiro se preparava para celebrar a esperança, a união e o renascimento, eu segurava entre os dedos trêmulos um papel que parecia carregar o peso do universo. Enquanto as luzes piscavam nas janelas e as pessoas planejavam os abraços da ceia, o meu tempo simplesmente parou. Foi o presente mais indigesto, o silêncio mais ruidoso que já enfrentei. Mas, mesmo ali, na beira daquele abismo em pleno fim de ano, eu não sabia que a luz da esperança encontraria um jeito de brilhar de novo.
A mão de Deus no centro cirúrgico
Enquanto eu tentava reunir forças para encarar a cirurgia do intestino, o meu próprio corpo parecia me dar outro alerta silencioso: eu sentia, dia após dia, aquele cisto crescendo consideravelmente. Uma presença constante, um aperto novo no peito.
A dúvida me corroía a alma. Em consultas aflitas com os médicos, eu questionava em lágrimas: o que fazer primeiro? Esperar o resultado da biópsia da mama ou ir direto para a mesa de cirurgia? Minha mente era um redemoinho de perguntas sem respostas, um turbilhão onde o medo tentava tomar o controle a cada segundo.
Mas o tempo não era meu aliado. Eu não tinha o luxo de esperar. A cirurgia do intestino não permitia trégua — era urgente, inevitável, uma questão dolorosa de vida ou morte.
E a cirurgia aconteceu.
Quando fechei os olhos naquele centro cirúrgico, entreguei meu destino. E quando os abri, vi que o impossível tinha acontecido: tudo correu bem. Graças à infinita misericórdia de Deus e às mãos abençoadas da equipe médica, o milagre se fez presente. Contra todas as estatísticas e os medos que me paralisavam, eu não precisei usar a bolsa de colostomia.
O alívio inundou meu ser, mas a batalha ainda não tinha terminado. Com as marcas no corpo e o coração ainda palpitante, eu agora encarava outra espera sufocante: a ansiedade quase insuportável pelo resultado da biópsia daquele cisto na mama.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2022
domingo, 18 de dezembro de 2022
Entre a urgência e o pavor
Antes de me entregar novamente à lâmina e ao hospital, busquei desesperadamente por outras saídas. Fui de consultório em consultório, ouvindo uma segunda, uma terceira opinião, rezando em silêncio para que algum médico me dissesse o contrário. Mas a resposta vinha sempre como um eco duro e inevitável: "A cirurgia é extremamente necessária."
Mesmo sabendo da urgência, eu adiei. Adiei um pouco... ou melhor, adiei o máximo que pude.
E por que adiei? Porque eu estava apavorada. Um medo paralisante, que me tirava o ar e congelava a alma. Não era apenas o corte na pele; era uma cirurgia de altíssimo risco, acompanhada por uma estatística brutal: 99% de chance de acordar usando uma bolsa de colostomia. Como aceitar isso? Como encarar a ideia de ver meu próprio corpo transformado para sempre? O medo de perder o controle sobre mim mesma me fez travar na beira desse abismo.
Quando uma dor revela outra
Em 2017, a vida me surpreendeu com um golpe devastador: a descoberta de um tumor no intestino. O diagnóstico veio acompanhado de uma palavra que ecoou com urgência no meu peito: cirurgia imediata.
Em um piscar de olhos, fui lançada em um carrossel doloroso de consultas preparatórias e exames intermináveis. A angústia era tanta que o tempo parecia atropelar tudo e, em menos de um mês, lá estava eu, na frieza de um centro cirúrgico, entregando o meu corpo às mãos dos médicos para retirar aquele mal.
Mas a vida parecia reservar camadas ainda mais profundas para a minha dor. Quando o cirurgião abriu caminho para retirar o tumor, veio o choque: a endometriose profunda havia tomado conta de mim, revelando um cenário muito mais grave e complexo do que qualquer exame pudesse prever.
O tumor inicial foi retirado, mas o alívio durou apenas um suspiro. A notícia veio como uma nova tempestade: o meu corpo precisaria passar por tudo aquilo de novo. Em questão de poucos meses, eu teria que encarar, mais uma vez, a mesa de cirurgia e a dor do desconhecido.
terça-feira, 16 de agosto de 2022
O primeiro sinal do meu corpo
Em 2017, o meu corpo deu o primeiro sinal. Descobri a presença de alguns nódulos na mama esquerda, e, naquele instante, um frio congelante percorreu a minha espinha.
Vieram os exames, a ansiedade sufocante da biópsia e a espera angustiante por um resultado. O veredito trouxe um suspiro de alívio: era um nódulo benigno. Um susto, mas sem perigo imediato. Naquele momento, tudo parecia sob controle; o protocolo era simples, bastava manter o olhar atento e acompanhar a evolução a cada seis meses.
E assim eu fiz. Religiosamente.
A cada seis meses, eu voltava àquele consultório. Refazia a mamografia, encarava o gel frio do ultrassom e segurava o respiro no escuro da sala de exames, torcendo em silêncio para que a vida continuasse seguindo o seu curso em paz.
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| Praia do Porto - Imbituba/SC |
Transformando a dor em palavras
Já faz um tempo... um tempo longo demais em que essa ideia pulsa no meu peito, me chamando em silêncio: a vontade de criar um blog e dar voz a tudo o que vivi. Hoje, finalmente, a coragem venceu o medo.
Decidi abrir este espaço como quem abre a janela de uma casa em dias de tempestade, buscando luz. Aqui, vou deixar registrado cada pedaço dessa jornada — as memórias que ainda doem, o presente que me desafia a cada amanhecer e tudo o que me atravessou desde aquele instante em que o mundo parou: a descoberta do câncer.
Não escrevo apenas para não esquecer. Escrevo para libertar o que trago no peito, para dar sentido à dor e, quem sabe, segurar a mão de alguém que esteja atravessando o mesmo escuro que eu. Seja bem-vindo à minha verdade.
Hoje, finalmente, a coragem venceu o medo.
Decidi abrir este espaço como quem abre a janela de uma casa em dias de tempestade, buscando luz. Aqui, vou deixar registrado cada pedaço dessa jornada — as memórias que ainda doem, o presente que me desafia a cada amanhecer e tudo o que me atravessou desde aquele instante em que o mundo parou: a descoberta do câncer.
Não escrevo apenas para não esquecer. Escrevo para libertar o que trago no peito, para dar sentido à dor e, quem sabe, segurar a mão de alguém que esteja atravessando o mesmo escuro que eu. Seja bem-vindo à minha verdade.
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