sábado, 22 de abril de 2023

Um sopro de luz no meio do caos




               Janeiro de 2021 começou em um ritmo frenético, uma maratona exaustiva contra o tempo. O que era para ser a simples marcação de uma consulta com a mastologista se transformou em uma saga angustiante, repleta de desencontros, portas fechadas e desencontros que até hoje não consigo entender bem como ou por que aconteceram.

            A minha primeira tentativa foi reencontrar a médica que acompanhou o início de tudo, aquela que investigou o primeiro nódulo na minha mama esquerda. Mas ela não estava lá. O chão pareceu tremer um pouco, mas não desisti: busquei uma segunda profissional. Quando tentei falar com ela, o mesmo balde de água fria — ela também não atendia mais naquele consultório. As secretárias insistiam, oferecendo outros nomes, mas o meu peito dizia que eu não podia entregar algo tão delicado a qualquer um. Recusei.

             Com o coração na mão e o nervosismo crescendo, decidi que precisava achar a primeira médica custasse o que custasse. Liguei para dezenas de clínicas, uma atrás da outra, e a resposta era sempre a mesma dor de cabeça: nada.

         Em meio ao desespero de ver o tempo correr, busquei socorro em quem já conhecia a minha história por inteiro: a minha ginecologista, que esteve ao meu lado desde quando descobri a endometriose. E ali, como um sopro de luz no meio do caos, o milagre da empatia aconteceu. Sem hesitar, ela pegou o telefone e ligou diretamente para a mastologista. Elas eram amigas. Em questão de minutos, o contato direto estava nas minhas mãos.

         Consegui marcar a consulta. Um ufa gigante ecoou no meu peito — um alívio tão profundo e necessário que fez parecer que, finalmente, a vida me dava uma trégua para voltar a respirar.


Diante do abismo, sustentada pela fé

 




No fundo da minha alma, uma voz silenciosa já me sussurrava a verdade: era câncer. O meu coração já sabia antes mesmo de a boca do médico pronunciar. A minha única incerteza era o tamanho do abismo que se abria diante de mim; eu não conhecia a gravidade do que viria, nem a dureza dos caminhos que precisaria trilhar. Mas, na penumbra daquele pressentimento, era a mão de Deus que sustentava a minha estrutura para não desabar.


Escolhendo viver, esperando em Deus

 


Naquele dia 23 de dezembro, o mundo parecia ter pausado para o fim de ano. Conseguir uma consulta emergencial para que a médica analisasse o resultado da biópsia era uma missão impossível — os consultórios estavam fechados e os telefones só chamavam em vão. Estavam todos de férias.

Eu estava com aquele envelope nas mãos, segurando o peso de uma dúvida que poderia mudar a minha vida, mas não havia a quem recorrer.

Foi então que tomei uma das decisões mais difíceis e corajosas da minha jornada. Olhei para o envelope, respirei fundo e o guardei no fundo da gaveta. Decidi que não deixaria o medo roubar os meus dias. Tranquei a angústia no peito, engoli a incerteza e fui viver. Fui buscar o abraço da minha família no Natal, ver o céu se iluminar no Ano Novo e respirar o ar das férias.

Aquele gesto não foi fuga, foi um ato de sobrevivência. Eu precisava guardar forças, me encher de amor e fé, porque no fundo do meu coração eu sabia: quando o ano virasse, eu precisaria de cada pedaço de mim para lutar.

Quando o mundo celebrava, o meu tempo parou

 


Vocês querem saber quando, finalmente, aquele resultado da biópsia chegou às minhas mãos?

É uma daquelas ironias dolorosas que só a vida é capaz de desenhar… O laudo saiu exatamente no dia 23 de dezembro de 2020.

Às vésperas do Natal. Num momento em que o mundo inteiro se preparava para celebrar a esperança, a união e o renascimento, eu segurava entre os dedos trêmulos um papel que parecia carregar o peso do universo. Enquanto as luzes piscavam nas janelas e as pessoas planejavam os abraços da ceia, o meu tempo simplesmente parou. Foi o presente mais indigesto, o silêncio mais ruidoso que já enfrentei. Mas, mesmo ali, na beira daquele abismo em pleno fim de ano, eu não sabia que a luz da esperança encontraria um jeito de brilhar de novo.

A mão de Deus no centro cirúrgico

 

Enquanto eu tentava reunir forças para encarar a cirurgia do intestino, o meu próprio corpo parecia me dar outro alerta silencioso: eu sentia, dia após dia, aquele cisto crescendo consideravelmente. Uma presença constante, um aperto novo no peito.

A dúvida me corroía a alma. Em consultas aflitas com os médicos, eu questionava em lágrimas: o que fazer primeiro? Esperar o resultado da biópsia da mama ou ir direto para a mesa de cirurgia? Minha mente era um redemoinho de perguntas sem respostas, um turbilhão onde o medo tentava tomar o controle a cada segundo.

Mas o tempo não era meu aliado. Eu não tinha o luxo de esperar. A cirurgia do intestino não permitia trégua — era urgente, inevitável, uma questão dolorosa de vida ou morte.

E a cirurgia aconteceu.

Quando fechei os olhos naquele centro cirúrgico, entreguei meu destino. E quando os abri, vi que o impossível tinha acontecido: tudo correu bem. Graças à infinita misericórdia de Deus e às mãos abençoadas da equipe médica, o milagre se fez presente. Contra todas as estatísticas e os medos que me paralisavam, eu não precisei usar a bolsa de colostomia.

O alívio inundou meu ser, mas a batalha ainda não tinha terminado. Com as marcas no corpo e o coração ainda palpitante, eu agora encarava outra espera sufocante: a ansiedade quase insuportável pelo resultado da biópsia daquele cisto na mama.