domingo, 18 de dezembro de 2022

Entre a urgência e o pavor

 

Antes de me entregar novamente à lâmina e ao hospital, busquei desesperadamente por outras saídas. Fui de consultório em consultório, ouvindo uma segunda, uma terceira opinião, rezando em silêncio para que algum médico me dissesse o contrário. Mas a resposta vinha sempre como um eco duro e inevitável: "A cirurgia é extremamente necessária."

Mesmo sabendo da urgência, eu adiei. Adiei um pouco... ou melhor, adiei o máximo que pude.

E por que adiei? Porque eu estava apavorada. Um medo paralisante, que me tirava o ar e congelava a alma. Não era apenas o corte na pele; era uma cirurgia de altíssimo risco, acompanhada por uma estatística brutal: 99% de chance de acordar usando uma bolsa de colostomia. Como aceitar isso? Como encarar a ideia de ver meu próprio corpo transformado para sempre? O medo de perder o controle sobre mim mesma me fez travar na beira desse abismo.

Quando uma dor revela outra

 


Em 2017, a vida me surpreendeu com um golpe devastador: a descoberta de um tumor no intestino. O diagnóstico veio acompanhado de uma palavra que ecoou com urgência no meu peito: cirurgia imediata.

Em um piscar de olhos, fui lançada em um carrossel doloroso de consultas preparatórias e exames intermináveis. A angústia era tanta que o tempo parecia atropelar tudo e, em menos de um mês, lá estava eu, na frieza de um centro cirúrgico, entregando o meu corpo às mãos dos médicos para retirar aquele mal.

Mas a vida parecia reservar camadas ainda mais profundas para a minha dor. Quando o cirurgião abriu caminho para retirar o tumor, veio o choque: a endometriose profunda havia tomado conta de mim, revelando um cenário muito mais grave e complexo do que qualquer exame pudesse prever.

O tumor inicial foi retirado, mas o alívio durou apenas um suspiro. A notícia veio como uma nova tempestade: o meu corpo precisaria passar por tudo aquilo de novo. Em questão de poucos meses, eu teria que encarar, mais uma vez, a mesa de cirurgia e a dor do desconhecido.





terça-feira, 16 de agosto de 2022

O primeiro sinal do meu corpo



Em 2017, o meu corpo deu o primeiro sinal. Descobri a presença de alguns nódulos na mama esquerda, e, naquele instante, um frio congelante percorreu a minha espinha.

Vieram os exames, a ansiedade sufocante da biópsia e a espera angustiante por um resultado. O veredito trouxe um suspiro de alívio: era um nódulo benigno. Um susto, mas sem perigo imediato. Naquele momento, tudo parecia sob controle; o protocolo era simples, bastava manter o olhar atento e acompanhar a evolução a cada seis meses.

E assim eu fiz. Religiosamente.

A cada seis meses, eu voltava àquele consultório. Refazia a mamografia, encarava o gel frio do ultrassom e segurava o respiro no escuro da sala de exames, torcendo em silêncio para que a vida continuasse seguindo o seu curso em paz.



Praia do Porto - Imbituba/SC


Transformando a dor em palavras

        Já faz um tempo... um tempo longo demais em que essa ideia pulsa no meu peito, me chamando em silêncio: a vontade de criar um blog e dar voz a tudo o que vivi.

               Hoje, finalmente, a coragem venceu o medo.

            Decidi abrir este espaço como quem abre a janela de uma casa em dias de tempestade, buscando luz. Aqui, vou deixar registrado cada pedaço dessa jornada — as memórias que ainda doem, o presente que me desafia a cada amanhecer e tudo o que me atravessou desde aquele instante em que o mundo parou: a descoberta do câncer.

           Não escrevo apenas para não esquecer. Escrevo para libertar o que trago no peito, para dar sentido à dor e, quem sabe, segurar a mão de alguém que esteja atravessando o mesmo escuro que eu. Seja bem-vindo à minha verdade.

Janeiro - 2021